Como Interpretar Exames de Colesterol e Triglicerídeos: Guia Completo

Recebeu o resultado do exame e não sabe o que significam LDL, HDL, VLDL e triglicerídeos? Neste guia, explicamos cada valor, os limites atualizados pelas diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia e o que fazer quando os números aparecem alterados.

Milhões de brasileiros recebem todo ano o resultado do exame chamado perfil lipídico — e boa parte deles não sabe ao certo o que fazer com aquelas siglas e números. LDL acima de 130, HDL abaixo de 40, triglicerídeos em 180. O que isso significa para a saúde? Há risco real? Precisa de medicamento ou mudança de hábitos resolve?

Este guia foi elaborado para responder exatamente essas questões, com base nas diretrizes mais recentes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), publicadas em 2025. Se você tem mais de 45 anos, histórico familiar de doenças cardíacas ou simplesmente quer entender melhor a saúde do seu coração, leia com atenção.

Nota importante: Este artigo tem caráter educativo e informativo. Os valores de referência apresentados seguem as diretrizes brasileiras, mas a interpretação dos seus exames deve ser feita pelo seu médico, que considera seu histórico completo e fatores de risco individuais.

O que é o perfil lipídico?

O perfil lipídico — também chamado de lipidograma — é um painel de exames de sangue que avalia os principais tipos de gordura em circulação no organismo. Ele inclui quatro medidas principais:

Em muitos laudos, aparece também o VLDL-colesterol, calculado a partir dos triglicerídeos, e o colesterol não-HDL, que representa todo o colesterol potencialmente aterogênico (ou seja, que pode obstruir as artérias).

Boa notícia: A Diretriz Brasileira de Dislipidemias da SBC não exige mais jejum obrigatório para a maioria dos pacientes. O exame pode ser feito em horário conveniente, sem prejuízo na interpretação. O jejum de 8 a 12 horas é indicado apenas em situações específicas, como triglicerídeos muito elevados, conforme orientação do seu médico.

Colesterol total: por que o número isolado engana

O colesterol total é calculado somando HDL, LDL e 20% dos triglicerídeos. O valor desejável, de acordo com as diretrizes brasileiras, é abaixo de 190 mg/dL para adultos acima de 20 anos.

No entanto, o colesterol total isolado pode ser enganoso. Uma pessoa pode ter o colesterol total em 200 mg/dL e estar protegida porque a maior parte desse valor é composta por HDL (o colesterol "bom"). Outra pode ter 185 mg/dL com HDL muito baixo e LDL elevado — uma situação de risco bem maior.

Por isso, a análise deve sempre considerar as frações do colesterol em conjunto, não apenas o número total.

LDL: entendendo o "colesterol ruim"

O LDL (do inglês Low Density Lipoprotein, ou lipoproteína de baixa densidade) é responsável por transportar o colesterol do fígado para as células do corpo. Quando está em excesso, pode se depositar nas paredes das artérias, favorecendo a formação de placas de aterosclerose — o principal mecanismo por trás do infarto e do acidente vascular cerebral (AVC).

O ponto central das novas diretrizes brasileiras de 2025 é que a meta de LDL não é única para todos: ela varia conforme o risco cardiovascular calculado pelo médico. Quanto maior o risco da pessoa, menor precisa ser o LDL.

Categoria de risco cardiovascular Meta de LDL (mg/dL) Exemplos de perfil
Baixo risco Abaixo de 115 Adulto jovem, sem fatores de risco
Risco intermediário Abaixo de 100 Hipertenso controlado, fumante leve
Alto risco Abaixo de 70 Diabético, doença renal crônica
Muito alto risco Abaixo de 50 Infarto ou AVC prévio único
Risco extremo Abaixo de 40 Múltiplos eventos cardiovasculares

A categoria de "risco extremo" foi introduzida pela nova diretriz e representa pessoas com histórico de múltiplos eventos cardiovasculares ou um evento combinado a pelo menos duas condições graves, como diabetes, tabagismo e doença renal crônica.

Atenção: Quando o LDL estiver acima de 190 mg/dL e/ou o colesterol total acima de 310 mg/dL, deve-se investigar a hipótese de hipercolesterolemia familiar — uma condição genética que aumenta significativamente o risco de doença cardiovascular prematura e requer avaliação especializada.

HDL: o colesterol que protege o coração

O HDL (do inglês High Density Lipoprotein, ou lipoproteína de alta densidade) é popularmente conhecido como o "colesterol bom" — e por boas razões. Ele age como um sistema de limpeza das artérias, coletando o excesso de colesterol e transportando-o de volta ao fígado para ser metabolizado e eliminado.

Ao contrário do LDL, quanto maior o HDL, melhor — dentro de certos limites. Os valores de referência para adultos são:

Estudos indicam que quando o HDL ultrapassa 80 mg/dL em homens ou 100 mg/dL em mulheres, ele pode, paradoxalmente, perder parte de sua função protetora. Por isso, o contexto clínico importa: o resultado deve sempre ser analisado em conjunto com os demais marcadores.

Para elevar o HDL naturalmente, as principais estratégias são: prática regular de exercícios físicos aeróbicos, alimentação com gorduras saudáveis (como as do azeite e dos peixes), redução do tabagismo e manutenção de peso adequado.

VLDL: a fração que transporta gordura

O VLDL (do inglês Very Low Density Lipoprotein, ou lipoproteína de densidade muito baixa) é a fração responsável por transportar os triglicerídeos produzidos no fígado para os tecidos do corpo. Quando os triglicerídeos estão elevados, o VLDL também sobe — e vice-versa.

O valor de referência para o VLDL é abaixo de 30 mg/dL. Na maioria dos laudos laboratoriais, o VLDL não é medido diretamente: ele é estimado dividindo-se o valor dos triglicerídeos por 5, conforme a fórmula de Friedewald. Essa estimativa deixa de ser válida quando os triglicerídeos ultrapassam 400 mg/dL.

Triglicerídeos: a gordura mais sensível à dieta

Os triglicerídeos são a principal forma de gordura utilizada como reserva de energia no organismo. Eles vêm principalmente dos alimentos, especialmente dos carboidratos e do álcool, mas também podem ser produzidos pelo fígado quando há excesso calórico.

Dos quatro componentes do perfil lipídico, os triglicerídeos são os mais sensíveis à alimentação recente — o que explica por que o exame foi historicamente feito em jejum. Com a atualização das diretrizes, os valores de referência passaram a considerar as duas situações:

Classificação Triglicerídeos em jejum (mg/dL) Triglicerídeos sem jejum (mg/dL)
Desejável Abaixo de 150 Abaixo de 175
Limítrofe 150 a 199 175 a 224
Alto 200 a 499 225 a 499
Muito alto 500 ou mais 500 ou mais

Triglicerídeos acima de 500 mg/dL aumentam significativamente o risco de pancreatite aguda — uma inflamação grave do pâncreas que pode causar dor intensa e exige hospitalização urgente.

O que causa o aumento dos triglicerídeos?

Ao contrário do que muitos imaginam, o maior vilão dos triglicerídeos não é a gordura da dieta — são os carboidratos simples e o álcool. O fígado transforma rapidamente o excesso de glicose e de álcool em triglicerídeos para estocar. As principais causas são:

Colesterol não-HDL: uma métrica cada vez mais importante

O colesterol não-HDL é calculado subtraindo o HDL do colesterol total. Ele representa a soma de todas as frações de colesterol potencialmente aterogênicas: LDL + VLDL + outras partículas intermediárias. A fórmula é simples:

Colesterol não-HDL = Colesterol total − HDL

As novas diretrizes brasileiras de 2025 passaram a reconhecer o colesterol não-HDL como meta coprimária de controle junto ao LDL. A meta de não-HDL é sempre 30 mg/dL acima da meta de LDL para cada categoria de risco. Por exemplo: quem tem risco baixo deve manter LDL abaixo de 115 mg/dL e não-HDL abaixo de 145 mg/dL.

A vantagem do colesterol não-HDL é que ele pode ser calculado mesmo sem jejum e independe da fórmula de Friedewald, tornando-o mais confiável em situações em que os triglicerídeos estão muito elevados.

A proporção colesterol total/HDL

Outro indicador útil presente em muitos laudos é a razão entre colesterol total e HDL. Ela é calculada dividindo o colesterol total pelo HDL. Quanto menor esse número, melhor.

A razão ideal deve ser inferior a 4:1. Essa métrica ajuda a avaliar o equilíbrio entre o colesterol protetor e o aterogênico, sendo útil especialmente quando o colesterol total está no limite.

Como fatores de risco alteram a interpretação

Os valores do perfil lipídico nunca devem ser lidos de forma isolada. Eles precisam ser interpretados pelo médico levando em conta o contexto clínico completo do paciente. Os principais fatores que influenciam o risco cardiovascular — e, portanto, as metas lipídicas — são:

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O que fazer quando os valores estão alterados

Receber um resultado fora dos valores de referência não significa necessariamente que será necessário tomar medicamentos. Para a maioria das pessoas, especialmente nas categorias de baixo e médio risco, as mudanças de estilo de vida já são capazes de trazer os valores para a faixa ideal.

Para reduzir LDL e melhorar o perfil lipídico

Para reduzir triglicerídeos

Suplementação com ômega-3: Para haver efeito clinicamente relevante na redução de triglicerídeos, os especialistas indicam doses acima de 3 gramas por dia de EPA/DHA combinados. Converse com seu médico sobre a dose adequada para o seu caso antes de iniciar qualquer suplementação.

Com que frequência fazer o exame?

A Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda que todos os adultos acima de 20 anos realizem pelo menos uma avaliação do perfil lipídico. A periodicidade dos exames subsequentes depende do resultado e dos fatores de risco:

Lipoproteína (a): o marcador genético que merece atenção

Uma novidade importante das diretrizes brasileiras de 2025 é a recomendação de que todas as pessoas dosem a lipoproteína (a), também escrita como Lp(a), ao menos uma vez na vida. Esse marcador é determinado geneticamente e seu aumento está associado a maior risco de infarto e AVC, mesmo em pessoas com LDL controlado.

Como o Lp(a) não responde às mudanças de estilo de vida nem à maioria dos medicamentos convencionais, sua medição serve principalmente para identificar pessoas que precisam de controle ainda mais rigoroso dos outros fatores de risco modificáveis.

Resumo: tabela de valores de referência para adultos

Fração Valor desejável Valor de atenção
Colesterol total Abaixo de 190 mg/dL Acima de 240 mg/dL
HDL (homens) Acima de 40 mg/dL Abaixo de 40 mg/dL
HDL (mulheres) Acima de 50 mg/dL Abaixo de 50 mg/dL
LDL (baixo risco) Abaixo de 115 mg/dL Acima de 145 mg/dL
VLDL Abaixo de 30 mg/dL Acima de 40 mg/dL
Triglicerídeos (jejum) Abaixo de 150 mg/dL Acima de 200 mg/dL
Triglicerídeos (sem jejum) Abaixo de 175 mg/dL Acima de 225 mg/dL

Esses valores são referências gerais para adultos acima de 20 anos. Crianças, adolescentes, idosos e pessoas com condições clínicas específicas podem ter metas diferentes, sempre definidas pelo médico.

Lembrete: De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia, cerca de 40% dos brasileiros apresentam colesterol total elevado. O problema é majoritariamente silencioso — não apresenta sintomas até que uma complicação grave, como infarto ou AVC, ocorra. Exames regulares são a única forma de identificar a alteração precocemente.

Perguntas Frequentes

Qual é o valor normal de colesterol total para adultos?

De acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), o colesterol total deve estar abaixo de 190 mg/dL em adultos com mais de 20 anos. No entanto, esse número isolado não é suficiente para avaliar o risco cardiovascular — é necessário analisar também as frações LDL, HDL e os triglicerídeos em conjunto.

Qual é o valor ideal de LDL (colesterol ruim)?

A meta de LDL varia conforme o risco cardiovascular calculado pelo médico: para baixo risco, abaixo de 115 mg/dL; para risco intermediário, abaixo de 100 mg/dL; para risco alto, abaixo de 70 mg/dL; para risco muito alto, abaixo de 50 mg/dL; e para risco extremo (múltiplos eventos cardiovasculares), abaixo de 40 mg/dL. A nova diretriz da SBC de 2025 tornou essas metas mais rigorosas.

Preciso fazer jejum para o exame de colesterol?

A Diretriz Brasileira de Dislipidemias da SBC não exige mais jejum para a maioria dos pacientes. O jejum de 8 a 12 horas é indicado apenas em casos específicos, como triglicerídeos muito elevados ou em situações clínicas determinadas pelo médico. Siga sempre a orientação do seu médico e do laboratório.

O que faz os triglicerídeos subirem?

O excesso de carboidratos simples (açúcares, pães, massas, refrigerantes), consumo de bebidas alcoólicas, sedentarismo e sobrepeso são as principais causas. Doenças como diabetes tipo 2, hipotireoidismo e resistência à insulina também podem elevar os triglicerídeos. Em casos raros, a hipertrigliceridemia familiar tem origem genética e pode persistir mesmo com hábitos saudáveis.

Com que frequência devo fazer o exame de perfil lipídico?

Para adultos saudáveis acima de 20 anos, recomenda-se o perfil lipídico a cada um a dois anos, ou conforme orientação médica. Pessoas com fatores de risco como hipertensão, diabetes, histórico familiar de doenças cardiovasculares ou colesterol elevado devem fazer o exame com maior frequência — geralmente anualmente. Pessoas em tratamento para dislipidemia fazem o exame a cada 3 a 6 meses.